Se ao humor negro juntarmos a tragédia humana, o resultado é “A Minha Família”. Uma peça traduzida e encenada por Rui Silva, onde se desmascara a ausência de valores sociais. A proposta partiu do Ajitar, o grupo de teatro da Ajidanha, naquela que é a primeira colaboração do grupo da Associação de Juventude de Idanha-a-Nova com os Cães à Solta.
Aos actores Rui Pinheiro, Alexandra Solange e Carla Miguel, do Ajitar, juntam-se então Nuno Leão e Bruno Esteves, da companhia de Alcains. Em cena, os cinco representam uma família rural, aprisionada pela pobreza e envolvida numa teia de relações absurdas.
PAI - Quanto é que pagaram por ele? Um euro? Mas isso é um insulto à família! E quem é que foi o brócolo que o vendeu? FILHO - Ninguém, fui eu que me vendi a mim próprio. PAI - Deixo aqui cem euros. E que conste que estou a pagar muito mais do que ele vale. Contra o amor não se pode ir. Mesmo doente, pago, e agora é meu outra vez.
“É a primeira vez que fazemos um espectáculo de teatro com outro grupo", refere à Beira TV Rui Pinheiro, presidente da direcção da Ajidanha. “Foi interessantíssimo porque deu para juntar as potencialidades dos dois grupos”.
“A três dias da estreia não tinha ainda a noção do que seria o espectáculo. Tinha as coisas soltas e comecei a juntar as peças”, confessa Rui Silva, encenador e tradutor de "A Minha Família". “Haverá pessoas que encontrarão só comédia, outras que encontrarão uma crítica social forte, outras que se calhar não encontrarão nada. O espectáculo fala de tudo, da solidão, da perda de valores, da força económica que a sociedade tem”. “«A Minha Família» tem uma ideia interessante, que é o facto de as pessoas serem uma moeda de troca, e quase terem filhos para conseguirem sobreviver e poderem montar uma empresa de venda de crianças”, argumenta Nuno Leão, actor dos Cães à Solta. “É irónico que se vendam os próprios genes como se vende um saco de batatas ou outra coisa qualquer”.
Crianças e velhos são vendidos e comprados, passando de mão em mão até eles próprios se transformarem em comerciantes de vidas humanas. Um negócio de família onde todos têm um preço.
PAI - Agora estou pobre, mas com tempo e dinheiro juntaremos a família. (...) Somos a família, o alicerce da sociedade. Isso é sagrado, a lei protege. Se não existisse a família, onde é que iríamos parar?
Ironia quanto baste numa sátira ao materialismo da sociedade, baseada na obra homónima do poeta e novelista Carlos Liscano, autor de outras dez peças de teatro. São situações cáusticas, ampliadas pela escrita interventiva do dramaturgo uruguaio, que durante mais de uma década esteve detido por motivos políticos.
PERSONAGEM - Isto não é um arquivo, é um depósito. Mesmo que eu quisesse ajudar, não podia. Os velhos estão todos misturados, e não é possível encontrar o seu pai, nem ninguém.
Soluções pouco ortodoxas com que as personagens tentam enganar a fome ou escapar à monotonia do quotidiano. A representação decorre num espaço vazio, à luz da máxima do encenador inglês Peter Brook. Dá-se assim privilégio à relação com o público, em detrimento do cenário, reduzido a um chão coberto de terra.
FILHO - Um velho em bom estado, quanto muito, poderia valer cem euros, com roupa incluída. (...) PAI - Quanto é que pagaste por mim? Duzentos? Que vergonha, já não se pode confiar em ninguém. Nós por duzentos euros entregávamos quatro velhos numa só embalagem.
Dos textos de autor às criações próprias, desde 2004 que os Cães à Solta já apresentaram mais de uma dezena de encenações com temáticas como o sofrimento, a crueldade, o amor ou a loucura, sem esquecer as produções destinadas a um público escolar. Já a Ajidanha, fundada em 1998 a partir do grupo de teatro experimental da Escola Superior de Gestão de Idanha-a-Nova, tem-se dedicado aos ateliês de dança e à escolinha de teatro, tendo por imagem de marca o festival de teatro amador daquela vila.
“Projectos há muitos. Às vezes não há é disponibilidade, recursos humanos. Às vezes nem é a falta de dinheiro, mas a falta de pessoas para ajudar”, explica Rui Pinheiro. “O que agora mais falta faz à Ajidanha é arranjar um espaço próprio para trabalhar”.
“Nós temos produzido tanto em tão pouco tempo, que o objectivo é também parar para pensar e ver o aquilo que se quer”, acrescenta, por outro lado, o actor Nuno Leão. “Nós temos muito a necessidade de sair. Gostamos muito de estar aqui, mas queremos mostrar o trabalho a pessoas novas, e o objectivo é sempre ir mais além”.
Diferentes formas de fazer teatro que se cruzam numa encenação conjunta, estreada em 2007, e que desde então tem vindo a ser apresentada em diversos pontos do país.
PAI - Se me pensas vender, digo-te já que não darão muito por mim. FILHO - Por pouco que seja, levo-te na mesma ao depósito. Com a venda dos dois, mais o que tenho, arranjo-me. PAI - E porque não vendes também a tua mãe? FILHO - Acabei de a vender...
Jorge Costa (texto, imagem e edição)
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